sexta-feira, 1 de novembro de 2013

MORRE INTENSAMENTE..




Sentiu o vento bater em sua pele enquanto caminhava ao longo do rio e permitiu-se refletir sobre as coisas a sua volta, permitiu-se desfrutar daquela estranha paz que o possuiu aos poucos naquela madrugada. O que fizera de sua vida? Qual o marco dela? Por que fazer o que pretendia fazer? Por que não fazer? Não era uma pessoa extraordinária ou que tivesse uma história trágica cheia de grandes surpresas. Era comum.
Na infância foi uma criança como todas as outras. Não era de brigas e muito menos um prodígio. Tinha dois irmãos. Pai e mãe. Tios, tias, avós. Sua adolescência foi tranquila sem grandes fases ou rebeldias. Adulto não passou por grandes problemas. Tinha um emprego. Não era chefe, era subalterno, um funcionário comum.



E com o coração angustiado ele pulou. Pulou. Pulou de cabeça naquele rio denso e sujo, onde à água escura refletia a sociedade. Pela primeira vez fez algo impensado. Surpreendente. Intenso. Saiu da ditadura de sua monotonia. Talvez, só talvez, seu corpo boiando ao longo do rio Tietê possa causar algum impacto. As pes



Se ele era tão banal, tão comum, por que se sentia tão estranho dos demais? Tão diferente. Se não passara por nada extraordinário por que se sentia pisado e humilhado? Por qual motivo sentia inveja do operário que trabalhava oito horas por dia? Por qual motivo se sentia sugado? Fadigado e esgotado? Era um vivo morto. Pessoas podem até supor que fora assassinado, roubado, assaltado ou até mesmo que tenha caído bêbado no rio. E quando descobrirem a verdade dirão “Por que um homem como ele se suicidaria?”, “Quem imaginaria?”. Pois é, ninguém. Era invisível, mas agora não mais. Sua morte não fora comum. Ou até fora, mas isso não importava mais, afinal, já estava morto. Simples assim. Sem vírgulas. Apenas pontos finais.




Por: Débora Moura Cardoso

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